Por Bremmer Guimarães

O que nos faz agir com violência em determinadas situações de nossas vidas? Em Cachorro Enterrado Vivo, solo do ator Leonardo Fernandes com direção de Marcelo do Vale e dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho, a solidão parece ser o mote pra que nossas ações e reações se tornem cada vez mais instintivas e menos racionais, tendendo geralmente a uma postura violenta. Seria o instinto o maior inimigo do homem?

A montagem apresenta quatro personagens complexas, dotadas de nuances psicológicas e que nos provocam uma série de questionamentos sobre seu caráter e comportamento. Três delas, personagens masculinas – um cachorro, seu dono e um operário – são representadas por Leonardo Fernandes. A quarta, uma mulher – dona do cachorro e esposa daquele segundo homem – conhecemos apenas por meio de um áudio, no início do do espetáculo, e dos discursos do cão e do marido dela, sendo o seu desaparecimento o fio condutor pra história da peça. O que terá acontecido com ela? Qual será seu paradeiro? Seria seu sumiço uma decisão dela própria? Ou um sequestro? Uma abdução?

A dramaturgia se desenvolve em sequência cronológica a partir de três monólogos: o primeiro, do cão; o segundo, do operário; e o terceiro, do marido da mulher desaparecida. A estrutura dramatúrgica mergulha nas memórias dessas três personagens e deixa lacunas que contribuem pra que o espectador possa construir aquela história a partir dessas três perspectivas. Parece ser um consenso dizer de que toda lembrança é uma ficção, mas uma das personagens propõe uma reflexão sobre esse senso comum: quando a memória se constrói? Em que momento gravamos uma lembrança? No começo dela? Ou no fim? A indagação exige que os espectadores sejam ativos e elaborem suas próprias histórias a partir do que se vê no palco. Durante a fruição do espetáculo, o primeiro segundo após o terceiro sinal nada mais é do que também uma memória, uma ficção. Ator, diretor e dramaturgia estão construindo essa história em conjunto com o público. E cada espectador possui uma memória única.

Em comum entre as três personagens da montagem, é possível destacar a solidão. Do cachorro e do marido abandonados, e a do operário, que trabalha o dia inteiro aparentemente isolado. Encenação, iluminação e cenografia contribuem pra que um ambiente inóspito e de abandono, onde essas três figuras estão presentes se instaure, numa paleta de cores que passa por tons pastéis e escuros, além de objetos deteriorados e distribuídos pelo espaço cênico de forma caótica. A solidão das três figuras parece ser consequência da perda e, até mesmo, da morte. Em determinado momento da peça, ao ser contratado pra enterrar vivo o tal cachorro do título, o trabalhador se lembra da morte do próprio cão e de como seu companheiro era fiel. O mesmo homem que é capaz de matar, é aquele que ama. Vale a pena mesmo matar um animal por uma quantia de dinheiro? Qual é o nosso próprio preço? Ao fugir do maniqueísmo, a dramaturgia enriquece as personagens em cena e contribui pra que nos identifiquemos e nos deixemos afetar por elas.

Em relação à atuação de Leonardo Fernandes, é bastante intensa e profunda a composição que o ator confere às três personagens que representa. Se a dramaturgia propõe diversos níveis de profundidade daquelas figuras, as expressões vocal e corporal do ator também. As nuances de cada personagem e as diferenças na construção de cada uma delas são bastante claras. Contudo, é importante refletir sobre o fato de em alguns momentos a composição do operário estar muito ligada a um estereótipo dessa figura. Justo por isso, o personagem rende muitos momentos cômicos da peça e atrai risadas do público. Será mesmo essa a sua função? Por outro lado, a construção corporal do cachorro foge totalmente de uma mimésis ou tentativa de reprodução da performance canina. Elementos do cão e do homem se confundem, numa representação muito singular dessa personagem. É possível também perceber na voz do ator, o vazio e o amargo do homem abandonado por sua mulher, e ainda que a personagem seja supostamente aquela que mais se aproxima de um “vilão” da história, por encomendar a morte de um cachorro, se torna muito difícil não nos afetarmos de alguma forma por sua dor.

Pensando também num contexto político da obra, é potente perceber como as três personagens muitas vezes apresentam uma postura agressiva e opressora recorrente na figura masculina e na nossa conjuntura social. Uma provável alternativa ao sumiço da personagem feminina que motiva a peça é: teria ela fugido justamente desse cenário de machismo e opressão em que estava inserida?

Por último, um spoiler inevitável, possivelmente uma indicação da dramaturgia ou um olhar aguçado da direção: a imagem do homem representando a mesma posição corpórea que a do cachorro é poética, violenta e uma espécie de costura pros monólogos que são compartilhados com a plateia. Em cena, animais selvagens, mas também humanos. A todo instante, racionalidade e irracionalidade se dissolvem. Talvez o conceito de humano esteja muito além do científico homo sapiens sapiens.

Espetáculo assistido em 7 de janeiro de 2016 no Centro Cultural Banco do Brasil de BH.

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