Por Bremmer Guimarães

Há algo que une “Humor”, o quarto espetáculo do Quatroloscinco Teatro do Comum, a “Ignorância”, quinta e mais recente criação do grupo: a metalinguagem. Nas duas montagens, é possível evidenciar uma reflexão sobre o fazer artístico e uma espécie de desconstrução do teatro realista em cena. Tanto na dramaturgia, já metalinguística, quanto na encenação, o coletivo explicita o jogo teatral e é possível que o conceito de “teatro do comum” que nomeia o grupo esteja relacionado justamente a essa linha de pesquisa. Ao contrário de montagens anteriores do grupo, em que os quatro atores integrantes do Quatroloscinco estavam no palco (com exceção do monólogo “Get Out!”), dessa vez, apenas Ítalo Laureano e Rejane Faria aparecem na atuação, com Assis Benevenuto e Marcos Coletta assinando a dramaturgia e a direção da obra.

Vi “Ignorância” pela terceira vez no dia 9 de janeiro de 2016, na Funarte-MG. Havia assistido à montagem em outras duas ocasiões: a primeira em sua estreia, no dia 21 de outubro de 2015, e a segunda dez dias depois, em 31 de outubro, também na Funarte. Acredito que Ignorância seja um espetáculo que oferece a seus espectadores diversas camadas de compreensão e interpretação. É um espetáculo de difícil digestão e análise, em minha opinião, tanto por investigar diferentes caminhos estéticos e de linguagem, quanto por abordar temáticas relacionadas à intolerância e à violência em nossa sociedade. Tendo como referência essa complexidade do trabalho, concluo que o “teatro do comum” proposto pelo grupo não seja um teatro “fácil”, que subestime seu público. Ainda assim, me questiono e questiono o grupo: que “teatro do comum” é esse?

Parafraseando o professor de filosofia política e filósofo italiano Antonio Negri, o comum seria sempre construído pelo reconhecimento do outro, por uma relação com o outro. A partir desse conceito, o “teatro do comum” do Quatroloscinco teria como base justamente um relacionamento com o outro, com os diversos outros, no caso os espectadores presentes na sala teatral. Não parece coincidência, então, que o mote de Ignorância esteja justamente na relação entre os seres humanos e na nossa capacidade de ignorar, ou não, algo, alguém e as suas ideias. Se, em “Humor”, a primeira metade da montagem é estruturada a partir de uma dramaturgia inicialmente “convencional”, com a presença de personagens e um conflito, em “Ignorância” isso não acontece já desde o começo do espetáculo. Em cena antes mesmo do terceiro sinal, atriz e ator agradecem a presença da plateia, estabelecendo um pacto de confiança e afeto com o público. Esse recurso já estava presente em “É Só Uma Formalidade”, primeira montagem do Quatroloscinco. Percebe-se que, desde sua fundação, o grupo evidencia que a interlocução com a plateia e a presença do espectador são fundamentais pra fruição de seus trabalhos. Busca-se um teatro feito com o outro.

Em minha perspectiva, a dramaturgia de “Ignorância” está sustentada em cinco grandes cenas, com algumas transições entre elas. A primeira dessas cenas é um monólogo de Rejane Faria, no qual a atriz revisita a história da humanidade, destacando o momento em que o primeiro homem se sentou e as mudanças trazidas por essa ação. Em cena, observamos diversas cadeiras e o objeto pode ser lido como metáfora pras relações de poder que supostamente levaram os seres humanos a ignorarem uns aos outros. A cadeira seria um elemento que rompe o comum, instaurando a diferença. “Há cadeiras pra tudo”, diz o texto. Existem cadeiras de plástico, de madeira, cadeiras executivas, cadeiras de teatro, cadeiras elétricas, cadeiras de tortura, e há até mesmo quem se sente no chão. Nessa metáfora, o hábito de se sentar e a invenção da cadeira modificaram a relação do indivíduo com o outro. Uma cadeira também poderia ser a nossa posição política, a nossa condição financeira, a nossa cor, o nosso gênero, a nossa orientação sexual, entre tantas outras possibilidades, como vai se evidenciar no desenvolvimento da dramaturgia.

Contudo, já no monólogo inicial, o pacto de afeto com os espectadores, proposto antes do espetáculo, começa a ser rompido. “Em que cadeiras você se senta?”, Rejane questiona, direcionando-se à plateia. Nesse instante, percebemos que estamos ali, na apresentação teatral, justamente pra sermos colocados em xeque acerca de nossas convicções. Trata-se de uma proposta potente, mas, que ao meu ver, em alguns momentos do trabalho, pode ser lida como um confrontamento entre quem está cena e quem está sentado nas cadeiras do teatro. Como esclarecer que as cadeiras em que o público se senta são as mesmas em que os atores e diretores da montagem se sentam também? Como experienciar o teatro como um campo que possibilite perguntas e que também seja um espaço de autocrítica, em vez de caminhar na direção de um discurso didático e com contornos de maniqueísmo?

Na cena seguinte, somos levados pra uma reunião de pais numa sala de aula. Ítalo e Rejane se revezam em diversas personagens num jogo ágil e dinâmico, muito bem conduzido pela atriz e pelo ator. A dramaturgia aposta no absurdo do cotidiano pra explicitar como, muitas vezes, não sabemos lidar com uma simples divergência de ideias. Temas como religião, vegetarianismo, fascismo, sexualização infantil, a “ditadura” do celular e a nossa relação com o tempo, são estopim pra uma discussão que desencadeia em ofensas e agressões verbais entre as personagens. A reunião pode ser lida como uma alegoria pro modo como performamos hoje em nossas redes sociais. Há uma necessidade muito grande de nos posicionarmos sobre os mais diversos temas na internet e, quando somos contrariados por algum interlocutor, é difícil que se estabeleça um diálogo. Somos quase sempre colocados em “caixinhas” do que é certo e do que é errado. A intolerância se torna recorrente. Porém, em relação à performance dos atuantes no palco, preocupa o fato de a representação de uma mulher por um ator homem estar muitas vezes ligada a um estereótipo cômico do ser feminino. Por que a mulher é motivo de riso por parte do público? E, por que, quando um personagem masculino é representado por uma mulher, essa mesma caracterização estereotipada e cômica não se evidencia?

Na terceira cena, a metalinguagem ganha força. Uma cadeira, aparentemente um objeto cotidiano, quando exposta numa galeria de arte é ressignificada, se tornando uma obra artística. Nos deparamos com dois personagens: uma mulher, artista e acadêmica; e um homem, um eletricista. Mais uma vez transitando pela comédia e pelo absurdo, a cena propõe reflexões importantes sobre o fazer artístico contemporâneo. “Isto não é uma cadeira”, diz uma fala do texto, em possível referência a obra “A Traição das Imagens” de Magritte, e a celébre frase: “isto não é um cachimbo”. No discurso do homem, podemos perceber, por exemplo, uma crítica do Quatroloscinco aos espaços de arte elitistas e opressores, que, mesmo sendo “públicos” e gratuitos, inibem seus visitantes. Essa opressão está presente na arquitetura desses lugares, na própria convenção de como deve-se vestir pra visitar um espaço de arte e, muitas vezes, na própria programação exibida. Em relação ao discurso da mulher, fica a impressão de uma crítica negativa em relação à arte contemporânea e à própria crítica artística. A arrogância da personagem se sobressai em relação à ingenuidade do eletricista. Ele é oprimido pela mulher. Parece que a arte é, muitas vezes, opressora.

Seria mesmo a arte a vilã a ser negada, ou podemos pensar em maneiras nas quais a arte dialogue com diferentes públicos? Qual seria o peso da nossa educação nisso? Não seria os artistas também vítimas desse sistema educacional? Em que medida o “teatro do comum” do Quatroloscinco se diferencia dessa arte contemporânea que o grupo critica? Pensando no teatro contemporâneo feito hoje em Belo Horizonte, percebo, cada vez mais, grupos preocupados em pensar seus espectadores, discutindo temas que repercutem em nosso cotidiano, o que inclui o próprio Quatroloscinco, e um diálogo também com a crítica teatral da cidade. Obviamente, não se trata de uma regra. Mas atribuir aos possíveis obstáculos nesse percurso um caráter maniqueísta pode enfraquecer essa discussão. Existem, sim, muitos problemas, ligados principalmente a uma institucionalização da arte. Nos tornamos reféns dos editais, ser artista é ser formado numa escola renomada, nossa arte só tem visibilidade se exibida num “palácio”. Nesse cenário, fazer teatro de forma independente, como o Quatroloscinco faz, é uma forma de resistência e é também admirável.

A partir da quarta cena, o espetáculo abandona a comédia e se enraíza no drama. Devo confessar que, pra mim, a quarta cena é a de mais difícil compreensão da obra. O discurso do personagem de Ítalo Laureano me soou vago e só consegui associar as falas da personagem à questão da xenofobia e da crise de refugiados, como me parece ser a proposta dos dramaturgos, depois de ler uma outra crítica de “Ignorância”, publicada por Luciana Romagnolli, no site Horizonte da Cena, no dia 8 de janeiro de 2016. Por isso mesmo, gostaria de destacar aqui a importância da crítica pra fruição de uma obra teatral. E também da importância que é, pra um crítico, ser sobretudo um espectador, ao assistir um espetáculo de teatro, e também leitor de outras críticas. Em relação à experiência sensorial dessa cena, a iluminação e a disposição caótica das cadeiras pela espaço cênico contribuem pra uma atmosfera quase fúnebre, potencializada pela música “Steal Away (To Jesus)”, cantada por Rejane Faria. Em minha primeira leitura do trabalho, pensei na personagem como uma mulher negra e oprimida durante o período de escravidão nos Estados Unidos, no século XIX. Não por acaso, depois de uma pesquisa, descobri que o canto é realmente desse período, e um dos símbolos da luta dos negros e negras na América do Norte, o que mostra a potência dessa cena e das diversas possibilidades de interpretação que o Quatroloscinco oferece aos públicos de seu trabalho.

A quinta e última cena é, em minha opinião, a mais marcante da obra. Justo porque, aqui, é a figura do opressor, e não a do oprimido, a que se coloca em xeque. Mostra-se uma personagem masculina desde sua personalidade mais “fascista”, até uma mais “humana”. Numa atuação visceral de Ítalo Laureano, conhecemos uma personagem violenta, que se denomina um “homem de bem”, em busca de justiça em meio às mazelas sociais. No discurso da personagem, podemos pensar na questão da redução da maioridade penal em nosso país e em como esse debate tem revelado muitas intolerâncias sociais. Tem crescido um pensamento de que podemos assumir papeis do governo e da nossa polícia, de que podemos fazer “justiça com as próprias mãos”, de que a redução da maioridade penal é a solução pra criminalidade no Brasil, mas não nos damos conta de que ao assumir essa postura estamos violentando majoritariamente crianças e adolescentes negros, pobres e vítimas da desigualdade social. Lembro do vídeo viral “Adote um bandido”, uma declaração da jornalista Rachel Sheherazade, depois que um menor de idade infrator foi acorrentado e violentadado por moradores de classe média alta da zona sul do Rio de Janeiro, sendo a jornalista a favor de tal ação. Certamente, não queremos ser como Sheherazade e seus seguidores. A cena também explicita o jogo teatral, já que, em muitos momentos, Ítalo “abandona sua personagem” e revela o seu cansaço físico e emocional ao público, lembrando um jogo presente também em “Humor”, na qual muitas vezes a atriz e os atores em cena interrompiam suas ações pra expor uma dificuldade de continuar representando as personagens da montagem.

É importante destacar as transições entre as diversas cenas, nas quais Ítalo e Rejane se revezam num potente jogo com inúmeras cadeiras, que ajudam a compor o cenário, acompanhados pela trilha sonora do músico Barulhista, que traz experiências sonoras a partir do ruído de cadeiras sendo arrastadas no chão. Opta-se por não arrastar as cadeiras em cena, provavelmente pra que não se torne um recurso ilustrativo. O jogo das transições contribui pra costura da dramaturgia, muitas vezes fragmentada, e pode ser lido até mesmo como uma lacuna pra reflexões do público entre as cenas. As cadeiras no palco são velhas, algumas até mesmo quebradas. A artesania da montagem é precária, contribuindo mais uma vez pra uma desconstrução do fazer teatral realista. Essa desconstrução também está presente nas roupas dos atores, que usam jeans, fugindo à uma provável convenção estética de que o figurino teatral não possa ser cotidiano. Dentre as transições, quero citar a a primeira delas, entre o monólogo inicial do espetáculo e a segunda cena, que é acompanhada pela interpretação da música “Negro Amor”, na voz de Ítalo Laureano. Qual é a potência dessa canção pra obra? O canto parece-me uma zona de risco pro ator e, em alguns momentos, é difícil compreender alguns trechos da letra da música.

Por último, gostaria de mencionar uma frase do final do espetáculo. “Foi difícil chegar até aqui?” Dramaturgicamente, o texto talvez até traga uma aproximação entre o grupo e os espectadores, mas a forma como é encenado pode gerar uma ambiguidade que leva ao distanciamento. Isso porque, nesse momento, há uma fronteira de cadeiras entre palco e plateia. E, nisso, retomo algumas questões do começo desta crítica. Como esclarecer que as cadeiras em que o público se senta são as mesmas em que os atores e diretores da montagem se sentam também? Como experienciar o teatro como um campo que possibilite perguntas e que também seja um espaço de autocrítica, em vez de caminhar na direção de um discurso didático e com contornos de maniqueísmo? Em muitos momentos do espetáculo essas questões parecem claras, mas, em outros, como aqui já mencionado, podem gerar interpretações que imagino não sejam aquelas pretendidas pelo Quatroloscinco.

É importante destacar que, logo após a apresentação do dia 9 de janeiro de 2016, na Funarte-MG, houve um bate-papo entre os espectadores e o grupo, mediado pelo pesquisador Reginaldo Santos, da Rede Plateia, dentro da programação do 10º Verão Arte Contemporânea. No debate, uma das espectadoras presentes contou que não pretendia assistir ao espetáculo “Ignorância” naquela noite, e sim a outra montagem, em cartaz noutra sala da Funarte-MG, naquele mesmo horário, cujos ingressos já estavam esgotados. Uma montagem integrante da programação da 42ª Campanha de Popularização de Teatro e da Dança. Numa metáfora com o cenário de “Ignorância”, o mediador do bate-papo disse que a espectadora havia trocado as cadeiras “confortáveis” da Campanha de Popularização pelas cadeiras supostamente reflexivas do VAC. Uma metáfora problemática, considerando a enorme variedade de espetáculos presentes nos dois festivais. Depois de assistir a um trabalho que falava justamente sobre intolerâncias, que refletia sobre o fazer artístico e teatral, a fala me soa como uma ironia, uma resistência, da qual não compartilho. Penso que essa polaridade de públicos e criadores deve ser cada vez mais diluída, em vez de reforçada.

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