Por Bremmer Guimarães

“Referências… Digamos que trabalho com materiais. Materiais diversos. Textos, gente, lugares, conceitos, acontecimentos, mais gente, palavras, imagens, cadeiras, mesa, voz, chão. Sobretudo trabalho com encontros – para evidenciá-los ou para promovê-los. As referências que informam a cena expandida (ou ‘campo ampliado’ para citar Rosalind Krauss) e seus processos de criação dizem respeito à absorção de qualquer matéria e questão do mundo; à absorção dos mais diversos materiais, metodologias, dispositivos, suportes, espaços, durações e agentes. Sim, claro, há os gêneros: teatro, dança, artes plásticas, cinema, etc. Porém, não à toa, me apresento como performer e teórica da performance, ou seja, como artista e pensadora num campo expandido que experimenta não apenas com toda sorte de materiais, mas com a própria noção de ‘arte’. Me dedico à tarefa de compreender, a cada vez, em meio a cada circunstância e através da vivência de cada material, o fazer da performance, o fazer da teoria e o fazer da vida como práticas indissociáveis. Ou seja, as referências que norteiam esse caminho são extremamente amplas e múltiplas. Para pensar e fazer a cena expandida, interessam filosofia, jardinagem, agricultura, jornalismo, manifestações, a última geração de smartphones, oceanografia, a minha vizinha Mariana, o pão da padaria, seu preço, quem o faz, as matérias primas utilizadas para fazê-lo e a história destas matérias primas. Importam as questões políticas e estéticas, teóricas e práticas, históricas e imediatas sempre compreendidas de forma entrelaçada. O norte é inequívoco: buscar gerar vida na vida, valorizar a humanidade do humano, desautomatizar modos de cognição, percepção, relação e ação.”

Essa foi a resposta dada pela atriz, pesquisadora e performer Eleonora Fabião, quando questionada sobre quais seriam as principais referências que norteiam seu trabalho, numa entrevista concedida ao jornal O Tempo e publicada em 23 de março de 2014. Naquele ano, talvez, o conceito de cena expandida não tivesse tanta repercussão quanto hoje em Belo Horizonte. É possível perceber que, naquele momento, muitos grupos e coletivos artísticos, grande parte deles preocupados com questões sociais e políticas, começaram a subverter a cena teatral belorizontina. Desigualdade social, racismo, machismo, homofobia e transfobia ganharam destaque nos palcos. Mas não somente neles. Festivais, mostras, residências, ocupações de rua, festas e, até mesmo, o carnaval da cidade começaram a ser pautados por discussões relacionadas à cor, ao gênero e à sexualidade dos corpos humanos.

O Teatro Espanca, sede do Grupo Espanca, por exemplo, é hoje um dos territórios em que essa cena expandida se faz presente e em transformação. Localizado na rua Aarão Reis, próximo ao Viaduto Santa Tereza, o espaço está em constante diálogo com ocupações realizadas na região, como o Duelo de MCs e a Praia da Estação, e só no último ano promoveu uma série de residências e ocupações artísticas, como a Afazeres Queers – Arte Viada no Centro. Com variada programação de música, literatura, poesia, performance, teatro, dança, artes plásticas, cinema e quadrinhos, entre outras manifestações, o Teatro Espanca manteve-se sempre ocupado em 2015. A intersecção entre o teatro, o espaço urbano e as outras artes foi capaz inclusive de afetar a pesquisa e a linguagem teatral do próprio Grupo Espanca, cada vez mais atento às questões sociais, como se viu em sua última montagem, Real – Teatro de Revista Política.

Já na vida noturna de Belo Horizonte, a Gruta – Casa de Passagem pode ser destacada como um dos lugares em que essa cena expandida vem se fortalecendo. Localizada ao lado do Galpão Cine Horto, o espaço abriga ensaios de coletivos teatrais e de performance, de segunda à sexta, além de festas nos fins de semana, grande parte delas realizadas por criadores das artes cênicas da cidade, como o bailarino Guilherme Morais e a sua já tradicional Dengue, e os coletivos Bacurinhas, Obscena Agrupamento e Toda Deseo. Em comum entre artistas e coletivos envolvidos, a militância feminista e LGBT.

Essa presença das artes cênicas em outros ambientes e espaços, além do espaço físico da sala de teatro, mostra-se como uma via de mão dupla. Diferente do que já pode ter sido observado, hoje existe um grande diálogo entre artistas e espectadores. A presença de pautas sociais e políticas afetando os processos de criação mostra que hoje a classe artística está interessada em falar, por meio da arte, dos mesmos assuntos que reverberam em nossas conversas do dia-a-dia e nas redes sociais, por exemplo. Além disso, levar as artes cênicas para uma festa, faz repensar os lugares do espectador e subverte a ideia de que teatro e performance existem apenas numa sala convencional. Não são mais apenas os espectadores quem vão até o teatro, o teatro também vai atrás de seu público.

É importante ainda lembrar que essa cena expandida presente hoje em BH tem também suas raízes no passado. Na década de 1990, outro espaço da cidade foi importante para o diálogo entre o teatro, a performance, outras expressões artísticas e os movimentos de resistência política. A antiga Moradia Borges da Costa da UFMG, localizada na região hospitalar da cidade, também foi referência de uma efervescente e diversa produção cultural. Filósofos, sociólogos e diversos artistas viveram no local, onde aconteciam festas, espetáculos e performances frequentemente.

Beijo no seu Preconceito e a visibilidade dos corpos em trânsito

Num episódio recente dessa cena expandida das artes cênicas em BH, no último sábado, dia 13 de fevereiro de 2016, a Gruta foi ocupada pela segunda edição da festa Gala Gay – Carnaval Gay na Gruta. Organizado pelo coletivo This is Not, o evento premiou os melhores blocos do carnaval 2016 em BH e atraiu mais uma vez à Gruta um grande público LGBT. DJs, música pop, performances artísticas e drag queens marcaram a noite, mas gostaria de destacar, neste texto, uma performance em especial, realizada pelo coletivo Beijo no seu Preconceito, dos artistas Igor Leal e Will Soares.

Na performance citada, percebemos um momento de ruptura no clima festivo que permaneceu por quase toda a noite de Gala Gay. Sem presença de música ou qualquer glamour, vimos uma performer, uma mulher, subir ao palco da Gruta e começar a tirar os itens de seu vestuário, um a um, até ficar completamente nua. Rosto fino, traços delicados, seios, curvas, ausência de pêlos: características e estereótipos que associamos e também impomos às mulheres, numa construção social que nos foi aplicada e que também ajudamos a construir cotidianamente. Ao terminar de se despir, uma surpresa para parte do público: a performer tinha um pênis. Durante a execução da performance, foi potente perceber as variadas reações das espectadoras e dos espectadores, também performers naquele momento. O silêncio da intervenção artística era rompido pelo incômodo e pelo estranhamento que se mostrava aparente no público em meio a perguntas como: Isso é arte? Performance sem música? Ela está tirando a roupa?

Mesmo que a maior parte do público presente na festa fosse de mulheres e de homens simpatizantes às causas LGBT, muitos deles efetivamente lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, a presença dos corpos em trânsito, dos corpos e das corpas que fogem a uma divisão binária da sociedade, homem-mulher, pênis-vagina, heteronormativa e heterocentrada, ainda causa incômodo. A performance foi executada como uma forma de combate a uma cultura homossexual ainda extremamente racista, machista, transfóbica e faloegocêntrica, na qual a figura da mulher, na qual a figura da pessoa trans, só pode existir em condição festiva, de espetacularização do diferente, como alegoria, com o glamour da drag queen, da música pop, como se vê nos realities shows da internet.

A performance ganhou ainda mais potência quando, ao fim da intervenção, a artista jogou em seu corpo um balde de tinta vermelha, em possível alusão à violência e aos assassinatos sofridos todos os dias por travestis e transexuais em nosso país. Isso se comprovou logo em seguida, quando uma voz no microfone anunciou a cruel manchete: O Brasil é o país onde mais se matam travestis e transexuais no mundo. E foi da também performer Cristal Lopez, que estava presente na ocasião, mulher negra e trans, uma das grandes referências no ativismo e na arte queer hoje em Belo Horizonte, uma frase que muito me impactou assim que a performance chegou ao fim: “Vestir-se de mulher por 12 horas é fácil, quero ver por 24”.

Não que devamos excluir o clima de festa dos nossos dias. Imagino que a proposta do coletivo Beijo no seu Preconceito não seja a de negar identidades, mas justamente possibilitar que novas possibilidades identitárias se manifestem. As festas LGBT, as nossas amadas setlists de divas pop, e estes espaços que subvertem nossas rotinas cotidianas, ainda mais cruéis, onde a figura da travesti e da “bicha afeminada” definitivamente não tem vez, são muito importantes e se apresentam também como símbolos de resistência política. Só que todo carnaval tem seu fim.

Usar saia, vestido, pintar as unhas, usar maquiagem, sendo um homem hétero, sendo um gay heteronormativo, tendo apenas o carnaval ou uma festa como pretexto, parece fácil, não? (E nisso não me excluo. Muitas vezes somos assim por medo mesmo.) O que as mulheres têm a dizer sobre isso? Por que os deslocamentos de gênero tendem a ser uma tentativa de reprodução do gênero de outrem? Quando o racismo, o machismo, a homofobia, o preconceito e a violência contra as pessoas trans também terão seu fim?  Quando seremos capazes de rever os nossos próprios preconceitos? Quando vamos parar de somente espetacularizar corpos trans e nos atentar também para a realidade tão opressora e violenta? Que possamos construir juntas e juntos cada vez mais espaços de subversão, de afirmação, de infinitas possibilidades e performances de gêneros e orientações sexuais. Ainda que muitas vezes acolhedora, toda caixinha é apenas mais uma limitação.

Anúncios