Por Bremmer Guimarães

O que de mais íntimo uma pessoa pode compartilhar com outras: a própria nudez ou uma cicatriz na barriga causada por uma facada? Em qual dessas duas circunstâncias nos encontramos realmente despidos e desprovidos de nossa intimidade? Andar peladas e pelados nas ruas por aí não seria a nossa condição mais natural e satisfatória, visto que nascemos assim? E a violência, ela é natural? Violentar o corpo de outra pessoa é natural? Esconder a violência e a sua marca ou denunciá-la e trazê-la a público? A tensão entre a natureza animal do homem e a sua formação enquanto indivíduo a partir da razão e da cultura é um tema caro em “Fauna”, o sexto espetáculo do Grupo Quatroloscinco. Um homem construído culturalmente. Construção cultural que se revela já na linguagem escrita: falamos homem, gênero masculino, quando na verdade queremos falar de espécie humana, de homens e mulheres, portanto, e também de pessoas não-binárias.

Voltamos à nossa primeira pergunta: O que de mais íntimo uma pessoa pode compartilhar com outras: a própria nudez ou uma cicatriz na barriga causada por uma facada? Pergunto isso porque, certamente, essa foi a primeira provocação em que pude pensar no exato instante em que, justamente, parei para pensar no espetáculo ao chegar em minha casa, na noite do dia 25 de setembro de 2016, um domingo, logo depois de assistir à “Fauna” pela primeira vez no Teatro Espanca. Eu poderia, você poderia, imaginar um ator pelado, antes mesmo de vê-lo assim em cena, mas eu não poderia imaginar a facada na barriga do outro ator do grupo. Quando imaginamos um corpo nu, pensamos nas suas marcas, cicatrizes e imperfeições? Pensamos num corpo amputado? Pensamos num corpo gordo? Pensamos num corpo negro? Pensamos num corpo trans? Penso no corpo de uma pessoa do mesmo gênero que o meu? Penso no corpo sempre como objeto sexual? Pensar no corpo de outra pessoa é natural? É comum? Eu posso pensar no corpo de outra pessoa sexualmente sem o seu consentimento? Eu devo? Pensar sexualmente em outra pessoa sem o seu consentimento é uma violência? Sim, uma violência à sua intimidade? Pensar pode ser uma violência?

Continuo pensando. Pensando em violência. E daí me vem um novo pensamento à mente: há uma condição para que o espectador assista à “Fauna”: ele precisa tirar os seus sapatos antes de entrar no espaço teatral. Se eu não quiser tirar os meus sapatos, eu não assisto? Por que uso sapatos? Andar descalças e descalços nas ruas por aí não seria a nossa condição mais natural e satisfatória, visto que nascemos assim? “Vocês estão livres”, diz um dos atores em cena. Livres para irmos embora se quisermos. Livres? Dizer que alguém está livre é de fato conceder a esse alguém liberdade? Liberdade é discurso? Liberdade é somente discurso? Considerando uma relação de distanciamento entre atores e espectadores hegemônica ainda no teatro, e sobretudo se pensarmos que o ator quando entra em cena é um rei, como nos diria o “pensador contemporâneo” Cláudio Botelho, se esse rei diz a seus súditos que eles estão livres, eles serão libertados realmente? O público participa de “Fauna” efetivamente ou a distância entre palco e plateia permanece? Eu tive vontade de sentar no palco. Mas não me senti livre pra isso. Eu não queria ser o “diferentão” da plateia, obviamente. Pensei. Não agi.

Mas continuo pensando: a minha liberdade me concederia esse direito de me sentar no palco? Por exemplo, algumas pessoas que sem perceber se sentaram em frente aos refletores que faziam parte da iluminação do espetáculo foram comunicadas de que deveriam trocar de lugar. Até onde vai a minha liberdade em relação ao outro? Até onde vai a minha liberdade enquanto espectador num espetáculo teatral? Retomo: dizer que alguém está livre é de fato conceder a esse alguém liberdade? E continuo: percebo que a pergunta contrária também instiga: uma pessoa pode estar presa ou se sentir presa sem que ninguém tenha dito isso a ela? Pergunta que “Fauna” ajuda a responder. Ninguém nos diz, antes do espetáculo começar, que deveríamos pegar uma das cadeiras de plástico empilhadas nos cantos do teatro para nos sentarmos. Ninguém nos disse. Mas a gente sabe que o teatro se organiza com o público sentado e os artistas em pé, atuando, na nossa frente. É a cultura. Quando isso muda, é porque costumam nos dizer. Vide o ato de tirar os sapatos, nosso passaporte de entrada naquele espaço. Como romper sem dizer? Como dizer sem romper? Afinal, o que é liberdade? Afinal, o que é violência? Romper é libertar? Romper é violentar?

Prosseguimos: violência é só física? Essa é fácil de responder: não. Há também a violência psicológica. Mas existem violências diferentes daquelas que já conhecemos? Continuamos falando dos sapatos. Aqueles sapatos que havíamos retirado na entrada e depositado em caixas, os nossos sapatos, são jogados (violentamente?!) no palco pelos atores. Até onde vai a liberdade do outro em relação a mim? Até onde vai a liberdade do artista num espetáculo teatral? Eu autorizei que fizessem isso com os meus sapatos? Qual o valor de um sapato? É sobre algo material o meu incômodo? Um sapato é essencial? Eu deveria realmente me importar? O que vale mais: um sapato ou as memórias das vítimas de um campo de concentração nazista? Questiono pois os atores compartilham conosco fotografias de uma viagem que fizeram à Europa. Compartilham conosco sua intimidade. Campos de concentração como pontos turísticos. A memória da violência transformada em turismo, negócio, lucro. Espetacularização. Tiramos fotos de um lugar onde milhares de pessoas foram violentadas e mortas para que essas imagens sejam postadas no Facebook ou enviadas no grupo da família no WhatsApp. Sem maniqueísmos, somos livres para estarmos ali. Para estarmos onde quisermos. Não? De que forma a presença nesses espaços de violência pode nos afetar?

Os sapatos continuam a nos perseguir. “O que está abaixo é o que sustenta”, disse uma vez a educadora Makota Valdina, no Fórum Nacional de Performance Negra. É o caminhar dos pés, ou pelo menos a representação deles, que nos leva pelo mundo. E, ainda citando Makota, “eu acho que a gente, cada uma pessoa, cada ser humano, é um pouco ator, é um pouco atriz. Agora, só resta saber em que direção essa pessoa, esse ser humano conduz sua ação, que nem sempre é uma representação”. Em “Fauna” os sapatos são também e são, sobretudo, representações. Revelam estereótipos. Os atores jogam com os calçados, tentando imaginar quem são os seus donos presentes na plateia. Mais uma vez, a intimidade. Mais uma vez, a liberdade. O que de mais íntimo uma pessoa pode compartilhar com outras: o próprio sapato? Mesmo em anonimato, eu posso me sentir exposto nesse jogo? Eu posso me sentir violentado psicologicamente? Ou eu posso perceber que um calçado, que esse objeto, definitivamente não me define ou representa? Um dos atores, um homem, usa um sapato de salto alto. Escolher os próprios calçados é ser livre? Ser uma pessoa é mais do que ser um tênis. Ou será que as caixas que guardam sapatos são as mesmas que guardam animais contrabandeados que são as mesmas que privam os seres humanos?

Falamos de representação. Em “Fauna”, os atores também falam de representação. Dizem que não estão representando. Mas não negam que são atores, que o que fazem é teatro. O teatro pode ser livre da representação? Acredito que tentamos. Mas ainda parece difícil. A performatividade, repetida inúmeras vezes, corre o risco de se tornar uma representação. A representação de uma estética, de uma tendência de se fazer teatro na contemporaneidade. Buscando liberdade, podemos nos enrijecer. Algo que é vivo pode morrer. E vai morrer, pois essa é uma condição da vida. Toda morte é uma violência? Toda morte leva à extinção? A tensão entre a natureza selvagem do homem e a sua domesticação enquanto indivíduo a partir da razão e da cultura é um tema caro em “Fauna”. Penso, logo existo. Existo? Existimos? E Descartes, ele existiu? Uma cena no escuro. Blackout. Eu existo no escuro? Eu existo sem enxergar? Eu existo sem ver o outro? Eu existo sem o outro? Penso racionalmente. Muitas coisas acontecem sem sequer pensarmos: o homem: o primeiro ser humano a dominar o fogo: a primeira pessoa a criar o fogo: ela teria pensado em criar o fogo? Ela teve essa ideia?

Muitas coisas acontecem sem sequer pensarmos. Mas temos a necessidade de pensar cada vez mais. Temos medo da nossa extinção. Temos a necessidade de existir cada vez mais. Eu tenho. E dessa necessidade, muitas vezes, surge a exclusão do outro. Preciso pensar mais do que o outro. Preciso existir mais do que o outro. A naturalização do pensamento humano e, ao mesmo tempo, o pensar a natureza humana, deram origem, por exemplo, ao nazismo. O pensamento sustenta o machismo, o racismo, a homofobia e a transfobia. O pensamento sustenta a intolerância. O pensamento pode desconstruir tudo isso? Pensar nos limita ou nos liberta? Pensar pode ser uma violência? Lembra? Eu penso agora. E neste exato instante causo uma extinção. Dizem que o Mar Morto é o mais salgado do mundo. Dizem que salgar a terra faz uma plantação inteira desaparecer. O pensamento não garante a manutenção da espécie. Também não é a extinção da espécie em si que o pensamento causa. É a extinção da ação. É a extinção do instante. O pensamento racional nos leva para o passado e para o futuro. É o que distingue os seres humanos dos outros animais. Pensamos em ser. Somos?

FAUNA
Direção: Italo Laureano.
Assistência de direção: Rejane Faria.
Texto e Atuação: Assis Benevenuto e Marcos Coletta.
Orientação Vocal: Ana Hadad.
Orientação Corporal: Rosa Antuña.
Provocação Criativa: Alexandre Dal Farra.
Cenografia: Eduardo Andrade.
Iluminação: Rodrigo Marçal.
Trilha Sonora Original: Barulhista.
Figurino: O Grupo.
Projeto Gráfico: Estúdio Lampejo.
Assessoria de imprensa: V5 Comunicação.
Fotografia de Cena: Guto Muniz.
Fotografia de divulgação: José Jr.
Video: Janaína Patrocínio – JPZ Comunicação.
Produção: Maria Mourão.
Realização: Quatroloscinco – Teatro do Comum.

Espetáculo assistido nos dias 25 de setembro e 1º de outubro no Teatro Espanca.

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