Por Bremmer Guimarães

5 de janeiro de 2017. Campo Santo, com direção de Guilherme Colina, é o primeiro espetáculo a que assisto neste ano, abrindo a programação da 43ª Campanha de Popularização do Teatro & Dança. Logo a princípio, é importante destacar como o processo de criação da montagem está intimamente ligado a uma escola livre de teatro, a RC2, e ganhou os palcos da cidade em caráter profissional.

São mais de 20 pessoas em cena e é difícil falar sobre uma coesão entre as atuações. É um trabalho de formação e é possível que nem todas as pessoas em cena busquem o teatro como ofício diário de suas vidas. Nesse caso, acredito que meu olhar enquanto espectador e crítico vai além: é bonito ver o encontro dessas 20 pessoas, tão distintas em idades, cores, origens, empenhadas no fazer teatral coletivo. É a função social do teatro: promover o encontro, uma experiência compartilhada, entre atuantes e espectadores.

É certamente um trabalho de risco pra quem atua. Durante a execução da montagem, todas as atuantes permanecem em cena e é um desafio manter a energia e a presença durante todo o período do espetáculo. Como continuo presente no palco mesmo sem desempenhar efetivamente uma ação? Como meu corpo reage ao outro a quem assisto, mesmo estando também no palco? Que relações sinestésicas podem surgir disso?

Chamam atenção as discussões propostas pelo texto: intolerância religiosa, machismo, homofobia, transfobia, saúde mental, pedofilia, poliamor, entre tantos outros temas sociais relevantes no teatro produzido hoje em Belo Horizonte. É importante que essas temáticas sejam apresentadas ao público, promovendo uma espécie de confrontamento às ideias fascistas e conservadoras que crescem em nossa sociedade, gerando reflexão e autocrítica.

Contudo, o excesso de assuntos tão importantes sendo retratados ao mesmo tempo pode fazer com que se dissolvam e percam sua potência política. É fundamental que essas personagens e suas vivências não sejam apresentadas de forma caricata e superficial ao espectador. Não só pela dramaturgia, mas pelas próprias atuações. Situações dramáticas como a do pai que recrimina a própria filha grávida e solteira não nos convencem, pois não há tempo pra que a situação vivenciada pelas personagens se instaure.

Quanto à encenação, é importante também pensar sobre um possível pudor nas cenas que mostram relacionamentos homoafetivos e relações sexuais. A dramaturgia não está reivindicando justamente essa liberdade de expressão do gênero e da sexualidade? Por que escondê-la, então? A mera representação das situações pode, muitas vezes, enfraquecer a sua abordagem e encontro com o público.

Vale destacar que o figurino do espetáculo aposta na dicotomia dos tons branco e preto pra caracterizar suas personagens. O que essa polaridade significa? Um maniqueísmo? É uma proposta que parece caminhar no mesmo lugar de representação de que havia falado anteriormente.

Já os objetos como guarda-chuvas que compõem a cenografia e também as lanternas que são manipuladas pelas próprias atuantes conferem à montagem uma plasticidade bem trabalhada e possibilitam uma leitura potente entre aquilo que se esconde (debaixo do guarda-chuva) e o que se revela (com a luz da lanterna). Uma possível alegoria das hipocrisias de uma tradicional família mineira, por que não?

Além disso, a trilha sonora ao vivo é bem executada, conferindo mais uma potencialidade à encenação. Se desenvolvido, o elemento pode se tornar mais do que um recurso de transição entre as cenas, configurando-se como um elemento efetivo da dramaturgia, tão essencial quanto a própria história e quem atua nela.

20160728185624677794i
Fotos: Ismael Soares

 

Anúncios