por Bremmer Guimarães

“Um ator, do lugar onde tudo pode vir-a-ser, contempla os que vieram”. Assim começa o texto de “Danação”, peça escrita por Raysner de Paula. Já nessa primeira rubrica, fica evidente uma das propostas da obra: estabelecer um encontro. Em teatro, o senso comum poderia nos levar a crer que espectadores são quem contemplam atrizes e atores no palco. E, muitas vezes, contemplamos realmente. Porém, nesse caso, existe o cuidado do atuante (e do escritor que não vemos em cena, mas se faz presente) em também nos contemplar. Instaura-se, então, uma relação. Uma criação compartilhada entre artistas e público.

“Ainda não começou”. Indicação que abre o “primeiro prólogo” da peça. Mas o que não começou? Se pensarmos na encenação, a experiência teatral já foi estabelecida. Pensando no texto, o que não se iniciou talvez seja o drama. Quem fala, vai dizer de uma menina: Helena. Uma menina sobre quem a história dessa peça se trata. Mas Helena ainda não está lá. Não há personagens ainda. Talvez. Não há representação. Será? De certo, na montagem, há Eduardo Moreira. Há um homem. Um ator. E esse homem vai nos contar a história daquela menina. Vai nos contar não só por meio da palavra, do discurso, da fala. Vai nos contar com seu corpo, sua respiração, seu olhar, seu sorriso. Vai nos contar sabendo que o ouvimos. E vai contar com a escuta dele atenta também.

Há, nessa contação de história, metalinguagem. Afinal, é a história de uma menina dentro da história de um ator. Um ator veterano. Um ator do Grupo Galpão. Depois de tantos anos de carreira, em seu primeiro espetáculo solo. Um ator se encontrando com outros artistas e outras gerações. Um encontro entre Eduardo, Raysner, Mariana e Marcelo. Moreira, De Paula, Maioline e Castro, mas não só. Um encontro com os xarás na plateia. Com conhecidos e desconhecidos. Um encontro com uma menina, sua mãe, um médico, a morte e um sem fim de personagens que possam surgir.

Essa metalinguagem é também metateatro. A encenação de Mariana e Marcelo propõe uma explicitação do fazer teatral. Se o texto de Raysner faz essa sugestão por meio da contemplação lá do princípio, diretora e diretor se aprofundam nela. Refletores, cenário e figurino são construídos e desconstruídos aos olhos do público pelo ator no palco. É um espetáculo sem a opulência que o espetacular pode pressupor. É um encontro cotidiano. Poderia ser. Eu mesmo já vi o Eduardo com aquela calça vermelha, aquela blusa roxa, aquele sapato preto de cadarço colorido, na rua, no ônibus. Dia desses. Você já deve ter visto também.

Isso não significa que dia-a-dia e teatro não são diferentes. Mas uma das leituras que essa proposição me faz pensar é que a arte deveria ser menos extraordinária e mais presente em nosso cotidiano. Aquele ator é sim uma personagem. Ele está atuando. Nós sabemos que no dia seguinte, ele vai contar aquela história outra vez. Não exatamente igual, pois teatro é arte viva, mas de uma forma bastante parecida. Porém, há nesse ator, há nessa proposta de encenação, uma busca pelo esvaziamento do representativo, do espetacular. Há uma busca pela performatividade.

Muitas vezes, negamos a representação no teatro. “Danação” faz justamente o contrário: a partir da performatividade, procura explicitar o que é representado. E tenho pensado que essa negação se tornou um objetivo tão grande em diversos processos de criação, que ela nos priva da experiência do fazer teatral, do presente, da ação. Não existe uma fórmula, uma técnica: vou atuar performativamente, vou fazer uma montagem performativa. Não crio já estabelecendo uma chegada. Vivencio o caminho. E talvez aí eu encontre performatividade. Talvez esse caminho seja a performatividade. Uma montagem teatral é caminho todo dia, nunca destino final. O trabalho do ator é caminho todo dia. Eduardo é um estudante de teatro. E é bonito perceber isso. Ele se arrisca, ele tropeça, ele erra (se é que o erro no teatro existe, já que estamos falando de experienciar o caminho). Eduardo está conosco e nós estamos com ele também.

“Primeiro prólogo. Segundo prólogo. Descomeço. Terceiro e último prólogo. Uma luz no fim do terceiro prólogo (ou de como começar depois de três descaminhos)”. O texto de Raysner propõe uma brincadeira com a terminologia das tragédias. Além disso, a peça se dispõe em versos como um poema concreto, com uma variedade de letras e espaçamentos em sua formatação. Brincadeira, e não implosão, porque essa desconstrução se evidencia mais na forma do que no conteúdo. O texto ainda se configura como um texto dramático clássico, apresentando enredo, espaço, tempo, personagens e se desenvolvendo linearmente. A escolha de Raysner se percebe mais estética do que estrutural, portanto, o que me instiga a querer ver o autor se aprofundando nessa pesquisa em futuros trabalhos.

É importante dizer que não acredito nessa leitura como um olhar fechado. Este texto, que você lê agora, é mais um caminho e aprendizado diário. “Danação” também pode ser lida como uma peça de teatro organizada em versos, mas que se aproxima mais de uma narrativa do que de um texto teatral. Nesse caso, penso se o que confere dramaticidade à obra não é justamente o olhar da direção que, a princípio, revela um caráter mais performativo, e depois se aproxima da representação quando Eduardo dá voz às personagens da história que conta. Como já dito, a performatividade ajuda a explicitar o que é representado. Mas será que o ator poderia dar voz à Helena, à mãe, à morte, ao médico, sem precisar modular sua fala? Sem alterar seu corpo? Como um ator homem pode atuar como uma personagem feminina sem que recorra a um timbre e trejeitos caricaturais?

Penso, por exemplo, na construção da personagem Morte, que se apresenta como uma figura feminina com sotaque sertanejo, embora não haja essa indicação no texto. Quais leituras essa representação pode trazer? Acredito que uma delas seja nos remeter ao universo sertanejo de Guimarães Rosa, no qual a peça se inspira. Por outro lado, explorar a comicidade da mulher e de pessoas sertanejas pode reforçar preconceitos que são tão recorrentes em diversas criações de humor. Digo isso justamente por acreditar que as pessoas criadoras da montagem não compactuariam com essa leitura e porque “Danação” parece buscar públicos mais amplos, apresentando um caráter mais popular. Isso é potente no próprio texto, de linguagem informal, na interação com a plateia, estabelecendo uma espécie de conversa, e na música tocada no acordeão, que remete ao lirismo do cancioneiro caipira.

Inclusive, é interessante perceber que “Danação”, num primeiro momento, se distancia do chamado teatro político, com temáticas sociais, hoje em efervescência na cena de BH. A montagem se aproxima mais do poético, do lúdico. A peça nos envolve por meio do afeto e pode nos remeter a sensações comuns em todas e todos nós, como a tristeza, a dor, a solidão, a saudade, depois de uma perda, de uma partida, de uma ausência de amor. Pode ainda nos remeter a um tempo gerido pelo trabalho, pela internet, pelos excessos que, por ironia, nos esvaziam.

Contudo, percebo a história da menina que é diagnosticada com um “poço de não” como fortemente política. O que seria o diagnóstico de um “poço de não”? Que doença é essa? Que ausência é essa? O drama de Helena é o nosso também. Esse “não” pode ser o golpe à nossa democracia. A não representatividade dos partidos políticos. Pode ser a intolerância, o racismo, o machismo, a homofobia, a transfobia. Somos tomados de “nãos” diariamente. Temos nossos direitos negados. Pessoas não têm moradia, alimentação, emprego, acesso à saúde e à educação. O que fazemos diante disso?

A peça se encerra dizendo: “tudo que é dito / Tudo que é grito / Não tem jeito! // Uma hora se cala”. Não podemos nos calar frente aos “poços de não”. Temos de exercer nossa liberdade de expressão. Querem nos calar, querem nos censurar, mas resistiremos. O teatro é uma resistência. Encontro danado esse: faz-se tão vivo que espanta a morte, o fascismo e toda tentativa de restringir o acesso do povo ao conhecimento. Um espanto que pode e deve ser e estar presente não apenas na arte, mas em todas as ações e caminhos.

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Foto: Marco Aurélio Prates
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