Por PH Pedrosa

“As formas de resistência se reinventam”, escreveu Peter Pál Pelbart em carta aberta aos secundaristas que ocuparam as escolas no estado de São Paulo no final de 2015.
E não há nada mais urgente! A necessidade de resistir num país que sofreu um golpe midiático-parlamentar-jurídico, culminando num desmonte do Brasil, com a mitigação de vários direitos sociais, tem forjado em vários setores da sociedade uma reelaboração da luta política. Afinal, a democracia está se rompendo. Creio que não é fortuito que “Fauna”, o novo espetáculo do grupo Quatroloscinco, que estreou em setembro de 2016, estabeleça uma encenação em que a ideia de rompimento está presente do início ao fim. O grupo aduz que o processo criativo teve como base a leitura do livro “O Circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo”, de Vladimir Safatle, que estabelece uma tentativa de desenvolver de forma mais sistemática a articulação entre afetos e corpo político. O próprio autor da obra disse em entrevista:

“A política não é só uma questão de circulação de bens e de riquezas. O problema sobre como as riquezas e os bens produzidos por uma determinada sociedade vão circular. A política é também uma questão de circulação de afetos. Como os afetos vão circular, como eles vão constituir vínculos sociais, quais são os afetos que vão implicar sujeitos em modos de relação e de agenciamentos, a maneira como que nós sentimos coisas ou não sentimos, o que você é capaz de ver, de visualizar e o que você não visualiza, como nós percebemos ou não percebemos define o que é o campo real do político. Quem define essas tais teses, quem define como você vê, como você sente e como você percebe, define afinal de contas o ritmo da urgência, quais serão as demandas que vai constituir o campo da política. Esse livro, O circuito dos afetos, tenta pensar quais são os afetos que atualmente de alguma forma ou de outra constitui os nossos laços sociais e que tipo de mudança é necessária para que outra circulação de afeto se constitua e de uma maneira ou de outra produza uma potencialidade nova na imaginação política.”

Como os afetos vão circular? A obra de Safatle aborda os afetos no sentido daquilo que nos sensibiliza, influência, mobiliza. O autor também aprofunda na questão do desamparo ao dizer que “o afeto que nos abre para os vínculos sociais é o desamparo”. O desamparo é a condição que nos impele a reagir, rever e se reorientar. Nesse sentido, no desamparo algum vínculo existe, o outro nos concerne, uma implicação com a alteridade se faz presente. “O desamparo não é algo contra o qual se luta, mas algo que se afirma” e, por isso, capaz de nos deslocar para agir e criar politicamente. A começar pelos corpos dos atores logo no começo da apresentação e no final com um texto que fala sobre a extinção das espécies, algo parece se romper. Sempre. E se alguma coisa está se rompendo, algo ainda resiste perpetuando esse movimento da ruptura. É paradoxal, mas de fato, o que ainda não se rompeu, de alguma maneira ainda resiste.

O início da montagem é ritualístico. É solicitado aos espectadores que entrem no espaço teatral depois de tirarem os calçados, deixando-os dentro de uma caixa que fica logo na entrada. De alguma forma essa ação tornam os presentes pertencentes a uma egrégora, nos recordando que a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. O público começa a entrar e no meio do espaço cênico onde estão os dois atores, numa partitura corporal que cresce em agitação, expurgação e enfrentamento. Há uma certa resistência nesses corpos, resistência em explodirem ou até mesmo em se colidirem. Algo está se rompendo ali, mas ainda resiste de alguma maneira. Interessante é notar que a palavra Fauna que está em evidência no chão não resiste e começa a desaparecer com o pisoteado dos dois artistas em cena, concebendo a ideia de corpos que se afetam. E como corpos políticos, essa afetação é capaz de reorganizar esse corpo maior denominado Fauna? Será que somos nós os algozes de nossa própria espécie? A Fauna está sendo extinta? Estaria acontecendo ali um ritual de extinção? É a nossa Fauna que está se extinguindo? E quem são os membros dessa Fauna? Animais? Homens? Será que não há mais distinção entre homens e animais?

Entoados pela excelente trilha de Barulhista, que criou uma melodia alucinante e agressiva, a cena desses corpos que parecem exorcizar a si mesmos e um ao outro se encerra quando Marcos Coletta e Assis Benevenuto ficam amparados um no outro com suas testas coladas e se olhando. Ambos os corpos parecem estar sem força para continuar. Mas o quê estaria se rompendo ali? Resistem ao quê? O estado limite que esses corpos se colocam sugere algum rompimento que estava em curso… mas o quê exatamente: os corpos, a humanidade desses corpos, a relação desses corpos, a própria humanidade? Se antes esses corpos pareciam se afetar num movimento constante e intenso, agora eles “pedem” amparo. Esses corpos estão afetados pelo desamparo, talvez dissesse Safatle.

Em seguida há uma quebra dessa tensão inicial, visto que os atores se apresentam em tom amistoso e coloquial, dizendo seus nomes verdadeiros e buscando uma interlocução direta com os espectadores, que estão bem próximos do espaço cênico. Cervejas são distribuídas após a indagação de “quem poderá contar a história do que poderia ter sido?”. A partir desse momento, a obra caminha de forma fragmentada na narrativa, mas nunca sem perder a relação convivial com o espectador. Quer dizer, a montagem que se pretende conversa, aciona o público em momentos pontuais para responder e dialogar com os atores, que estão em cena. É uma conversa, porém sempre entrecortada por muitas outras ações dos atores e elementos dramatúrgicos suspendendo o fluxo despretensioso e inesperado que uma conversa pode tomar. Ressalta-se um traço de metateatro na peça, quando em determinado momento Assis pergunta ao público o que faz um ator. Interessante notar que quase sempre as respostas dizem sobre a ação de atuar enquanto o ator recorda fazeres cotidianos inerentes a qualquer ofício como pagar contas ou pegar ônibus, revelando a performatividade de sua ação cênica.

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É dito que eles querem que todos se envolvam, que estão ali para tentarem construir algo juntos (público e artistas), mas com a liberdade de agirem conforme quiserem, inclusive encorajando que aparelhos celulares sejam usados a qualquer momento, seja para atender ligação ou registrar a peça, mudar de lugar ou se retirar do teatro caso não gostem da apresentação. É interessante notar que essa liberdade já nos é dada, mas de todo jeito o artista nos recorda dela. Não é gratuita essa observação, visto que o espectador historicamente foi estancado em seu lugar, numa posição de recebedor do que se emana no palco, ao menos nas encenações teatrais tipicamente dramáticas, algo que “Fauna” fissura. A forma enfática e cativante que isso é feito parece dizer que naquela encenação prescindir do outro não será possível. E é exatamente isso que acontece, porque numa abordagem performática e relacional, Fauna coloca o espectador para executar a obra junto com os artistas, permitindo uma presentificação de todos os corpos que ali estão. Contudo, é preciso registrar que ainda assim a encenação parece estar calcada num risco calculado de performatividade, o que permite que o espectador queira essa convivência e viva a sua liberdade, mas de alguma forma sempre já captado por algum comando ou direcionamento dos atores. Os espectadores aderem verdadeiramente à proposta ou são apenas impelidos de alguma forma? Criam-se mecanismo de “captação” desse espectador? Qual é de fato a liberdade dada? O que se propõe ao público tem margem para uma recusa deliberada ou até mesmo uma adesão espontânea em algum momento que fuja ao que a encenação já pretende ou espera dessa convivência?

Os calçados, então colocados numa caixa pelos espectadores na entrada para o teatro voltam ao espaço cênico, jogados pelos atores, remetendo inicialmente às chocantes imagens dos corpos empilhados nos campos de concentração da segunda guerra mundial, em especial no de Auschwitz, conforme relato de Marcos e fotografia que passa pelas mãos dos espectadores mostrando sua visita à esse local. É muito potente os signos que os calçados permitem durante toda a montagem, ora compondo o espaço cênico, ora nos pés de atores e do público. Eles ganham uma dimensão para além do objeto cênico. A forma como são apropriados pela encenação parecem ganhar uma dimensão de “um não objeto, algo que se recusa como objeto para, em contrapartida, ser capaz de convidar o outro a experienciá-lo como sujeito. Coloca-se em evidência o objeto para presentificar o corpo que não está lá”, como dito no ensaio de Tania Rivera, presente no livro “Ações” de Eleonora Fabião.

“Os sapatos possuem um forte simbolismo. Um par de sapatos pode ser a representação do viajante, do caminhante, portanto, do movimento, do deslocar-se de um lugar a outro. Suas marcas nos remetem a caminhos que o viajante percorreu, o seu trajeto pela vida. Mais do que meros objetos, sapatos revelam memórias. Têm a função de proteger os pés de quem os veste para trilhar caminhos que podem ser acidentados, tortuosos, perigosos” (SILVA, 2012). Em determinado momento, o público é impelido a imaginar e dizer características dos supostos donos de calçados escolhidos pelos autores. A imagética trazida por essa ação me recordou muito os quadros de Vincent van Gogh, que pintou em diversas telas pares de sapatos, cavando em nós a mesma especulação sugerida na montagem.

Os calçados espalhados pelo espaço cênico, diversos em suas formas, cores e tamanhos sinalizam para uma Fauna que é intrinsecamente heterogênea e que padece de alteridade. Afinal, “a gente é muito”. Não é à toa que em determinado momento Marcos convida alguém do público a calçar dois calçados distintos e que nitidamente não são da pessoa. O que pensa esse espectador ao calçar algo que não é seu? Será que ele é capaz de se colocar no lugar daquele outro que é o dono dos calçados? Mas que outro é esse? O que ele pensa? Por onde pisa? E os espectadores donos de cada calçado, o que pensam em vê-los sendo colocados por esse outro? Essa ação de calçar os sapatos alheios traz uma dimensão indissociável de uma esfera absolutamente íntima que caminha para uma dimensão coletiva ou o contrário. Existe alguma espécie de alteridade quando somos capazes de calçar a intimidade do outro? Até que ponto conseguimos manter o que há de mais singular diante de um todo tão plural? Até que ponto a minha identidade não se dilui ao perceber que eu posso sim calçar aquilo que calça o outro e, portanto, diante de uma individualidade que é escolher o que calçar, experimentar essa individualidade que é do outro. Sem dúvida é um forte e belo momento em que corpos e discursos se misturam e se confundem para desconstruírem identidades pessoais e coletivas, como assevera a sinopse. “O pensamento moderno ocidental é refém da noção de identidade, que permite o delineamento autônomo de um eu unitário ao qual se opõe o outro. Apenas o encontro no qual a minha própria identidade seja fissurada e posta em crise, é capaz de propiciar uma real experiência do outro.”, assevera o ensaio já mencionado “Por uma estética do estranho”, de Tania Rivera. Calçar os sapatos alheios borra as fronteiras entre o público e o íntimo, o amigo e o desconhecido, o lugar de passagem e o de convivência. “Algo se troca: o meu se torna seu e o seu, meu. Ou será que o “meu” já era do outro?” O mundo é algo que se compartilha em delimitações fluidas, em transições”. Quando o espectador aceita calçar os sapatos alheios, “trata-se de explorar uma zona de troca entre ele e o outro de modo a pôr em prática um modo de ser estranho, e assim, renunciar à unificação e à fixidez identitárias.” “A identidade é uma linha que parte em muitas direções.”

A obra levanta questões e caminhos de entendimento. A palavra aqui, diferentemente de Ignorância, montagem anterior do grupo me parece menos extensiva e direta, embora com notável voltagem política. O “ataque dramatúrgico” proposto nessa encenação é mais polifônico, sugerindo possibilidades de entendimento das relações, do outro, da Fauna e sua complexidade, sem ao tanto pretender estabelecer um discurso definitivo. A palavra aqui ressoa, articula-se, gera sentido, amplia a experiência humana, reinventa o mundo. Fauna parece sinalizar para uma arte que tem compromisso com o desconhecido, o imponderável, o risco, o abismo. Toda a construção cênica jamais se encerra ou define um sentido do que se conta e, talvez, seja por isso, é dito que ali não se está contando nenhuma história. Será?! Afinal, uma atmosfera de precariedade perpassa toda a montagem, emanando em vários momentos, um tom apocalíptico dessa Fauna. O apocalipse não como fim de tudo, mas, talvez, como o findar de tudo numa repetição sem limites.

Mas essa precariedade, que me soa diferente do que é efêmero se faz sempre diante do outro. Se o rompimento precede uma extinção, eu tendo a acreditar que as coisas, a vida, as relações e a existência já estão em um estado de permanente precariedade, que nos acompanhará até o fim. A pulsão que habita a nossa Fauna é precária e não efêmera, ainda que resulte em sua extinção. A forma como o texto final é dado sugere uma certa desesperança sim, mas me parece mais uma revelação de que a Extinção colocada não é a completa desaparição e ausência, mas sim precária vista que denota a incompletude de toda aparição como sua condição corpórea e dinâmica constitutiva, afinal desde que a vida surgiu não há registro da sua completa extinção. Essa diferença entre efêmero e precário é o que a performer e pesquisadora Eleonora Rubião explicita em seu livro “Ações” e que transcrevo aqui, por acreditar que Fauna estabelece um “Teatro Performativo da Extinção”, calcado na ideia de precariedade.

“No sentido performativo, a potência do precário deriva da maneira como ele difere, e também adiciona, à noção de efêmero (termo frequentemente utilizado para conceituar o aspecto temporal da performance). Se o efêmero é transitório, momentâneo, breve (o oposto de permanente), o precário é instável, movido, arriscado (o oposto do seguro, estável, protegido). Se o efêmero é diáfano, o precário é vibrátil. Se o efêmero denota desaparição e ausência (predicando então que, em certo momento, algo foi inteiramente dado a ver), a precariedade denota a incompletude de toda aparição como sua condição corpórea e dinâmica constitutiva. Se o efêmero pode abrir espaços de melancolia, a urgência material do precário enerva corpos e espaço. Se o efêmero ensaia a morte, o precário vive a vida. Se o efêmero se refere àquilo que não dura, o precário descobre que o que está “em construção já é ruína”, revelando assim a fragilidade generalizada do capital. Se efêmero deixa traços, o precário é por si só resto e deixa o que é. O precário não anuncia ou assemelha-se a seu desaparecimento; em vez disso, ele entrelaça presente, passado e futuro como presença. A poética corpórea, a política corpórea e a historicidade corpórea do precário aproximam tempo e matéria de tal modo que não se pode concebê-los autonomamente. Precariedade seria a performance da indissociabilidade entre tempo e matéria. O corpo, essa matéria temporal, esse tempo material, seria, pois, emblema da precariedade. Corpo, cuja forma é movimento. Movimento permanente movendo-se permanentemente no movimento permanente.”

A dimensão do outro nunca se perde na montagem, porque “não existe corpo sem o olhar do outro. Nunca se está sozinho no palco do mundo”, então é justo que no espaço cênico esse outro seja sempre evocado, “assumindo a obra como uma proposição, um convite ao outro. Essa proposta vai muito além da ideia de “interação do público”, na medida em que põe radicalmente em questão a posição autônoma do artista, bem como da própria obra. Só o outro completa a obra de arte, que não existe sem ele. O encontro com o outro talvez não seja apenas prazeroso, pois a presença do corpo implica um “atrito das presenças”. Esse atrito, de alguma forma existiu explicitamente em uma das sessões que estive, quando uma pessoa do público se recusou a entregar os seus calçados. Marcos insiste no jogo e pega os calçados e os coloca junto dos outros perguntando-a: você senti alguma coisa ao vê-los aqui? Vale destacar a habilidade do ator em insistir no jogo, visto a recusa inicial da pessoa e seu nítido constrangimento.

Embora eu acredite que “Fauna” é uma obra porosa sobre o entendimento das relações humanas, me parece haver uma predominância de um discurso de que homens e animais, distintos pela cultura que aqueles carregam, nada mais são que frutos de uma mesma natureza. O discurso parece caminhar mais para o lado da natureza como centralidade, da abordagem biologizante da espécie humana. Isso poderia soar que a obra sinaliza uma existência e uma experiência humana um pouco pessimista. Porém, durante toda a montagem há rastros de uma humanidade que não é apenas animalesca. Não é só uso de sapatos que nos fazem animais diferentes dos animais selvagens. Nós também temos a capacidade de evocar memórias, como os atores fazem em vários momentos, ao recordarem de passagens das suas vidas. Humanos evocam memórias, animais não. Com um final que pode sugerir ainda mais esse pessimismo, até mesmo um certo niilismo, visto que finaliza com o discurso técnico-científico da extinção, creio que durante toda a montagem há fissuras desse entendimento. É preciso ressaltar que o texto final dito por Marcos assevera tecnicamente sobre a extinção das espécies e é dado de forma gravada rompendo com a linguagem teatral até então verificada, em que a palavra dita aqui agora é espalhada sem pretensão de registro. Desse modo, “Fauna”, se encerra com uma espécie testamento gravado que explicita a nossa finitude, com corpos precários, que estão em processo de desaparecimento e que, por um milagre, na escala evolutiva podem até reaparecer.

A pequena chama de um fósforo acendido quase no final da apresentação parece apontar para o pouco que ainda nos resta de humanidade, sim, uma humanidade precária, resistindo a sua inevitável veia biologizante, que caminha rumo a sua extinção. Aliás, é preciso registrar a arte gráfica da programação da peça, entregue na entrada do espetáculo e feita pelo Estúdio Lampejo. É belíssima e imagética aquele agrupamento de fósforos, remetendo de alguma forma ou de várias formas ao nome da montagem. Para mim, trata-se de um pequeno-grande detalhe que demonstra o esmero do Quatroloscinco ao buscar uma identidade visual para obra que também possa gerar significados múltiplos, sinalizando mais uma vez que “Fauna” não é uma peça de tese, mas uma infindável busca por respostas ou investigação de questões que nos atravessam.

Será que em algum momento seríamos capazes de criar novas formas de resistência, não apenas para enfrentar tempos tão vis e sombrios, com fissuras políticas e sociais cada vez mais agudas, mas resistir a essa fissura existencial que traz em seu bojo uma humanidade também feita de pulsões tão animalescas? O teatro do Quatroloscinco consegue resistir pelo primor em construir uma obra tão atual problematizando política e existencialmente a nossa natureza, com fortes interseções com as questões de nosso tempo. Resiste enquanto teatro de grupo e independente , capaz de mergulhar num abismo de possibilidades e enfrentamentos sobre a nossa condição, essencialmente precária e previsivelmente extinguível.

Creio que o Teatro do Comum – que dá nome ao grupo e que sugere a capacidade de um fazer teatral pautado por aquilo capaz de atravessar a todos, tornando o comum cada vez mais comum, alcança êxito. A relação convivial com o espectador é pretendida. Na verdade é uma escolha estética, o que permite o próprio espectador aprofundar a sua percepção sobre a Fauna da qual faz parte. É bonito perceber que, pretendendo refletir sobre o nosso tempo e sobre a nossa condição, o Quatroloscinco tenha trazido de fato para a encenação uma presença e uma participação mais efetiva daqueles que compõem ou estão presentes no espetáculo “Fauna”, para dialogar sobre a Fauna a que todos nós estamos inseridos. Esse envolvimento dos artistas em cena e o público presente com a execução da obra é tão imbricado que poderíamos dizer que a partir desse trabalho o Quatroloscinco tenha se tornado QuatrolosSeis, Quatrolosdez, Quatroloscem, Quatrolosmil, explicitando que o fazer teatral é por excelência uma esfera coletiva, de encontros e trocas. Nesse sentido, ao criar uma obra que abertamente conversa com as pessoas, em tempos onde o diálogo cedeu a ataques de ódio, o que se pode dizer é que o grupo fez dessa escolha uma resistência a tempos de tanto embrutecimento e autoritarismo.

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Fotos: Guto Muniz

Referências bibliográficas:
FABIÃO, Eleonora. Ações – Rio de Janeiro, 2015.
SILVA, Jane Ribeiro. A Execução Penal à Luz do Método APAC – Belo Horizonte, 2012.

FAUNA
Direção: Italo Laureano.
Assistência de direção: Rejane Faria.
Texto e Atuação: Assis Benevenuto e Marcos Coletta.
Orientação Vocal: Ana Hadad.
Orientação Corporal: Rosa Antuña.
Provocação Criativa: Alexandre Dal Farra.
Cenografia: Eduardo Andrade.
Iluminação: Rodrigo Marçal.
Trilha Sonora Original: Barulhista.
Figurino: O Grupo.
Projeto Gráfico: Estúdio Lampejo.
Assessoria de imprensa: V5 Comunicação.
Fotografia de Cena: Guto Muniz.
Fotografia de divulgação: José Jr.
Video: Janaína Patrocínio – JPZ Comunicação.
Produção: Maria Mourão.
Realização: Quatroloscinco – Teatro do Comum.

Espetáculo assistido nos dias 1º e 9 de outubro de 2016 no Teatro Espanca, e no dia 28 janeiro de 2017 no Galpão Cine Horto.

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