Por Bremmer Guimarães

Percebo, já faz algum tempo, uma transição estética e discursiva naquilo que se configurou como “teatro político” na cena teatral de pesquisa em Belo Horizonte nos últimos anos. Representatividade importa, é verdade, e o teatro da década de 2010 na cidade foi marcado pela constante presença de discursos identitários no palco. O empoderamento feminino, o debate sobre cor e raça, além de discussões sobre gênero e sexualidade, foram encenados e ganharam destaque em diversas criações. Essas temáticas, inclusive, transbordaram um teatro considerado “alternativo” e o questionamento em relação a produções comerciais (e também algumas não-comerciais) que reforçassem estereótipos e preconceitos machistas, racistas, homofóbicos e transfóbicos foi massivo, levando a protestos e manifestações que resultaram até em mudanças de elenco e de dramaturgias dessas produções.

Se a busca por uma identificação e a manifestação das identidades foi tão importante, e ainda é, nesse recorte da criação teatral belorizontina, parece agora haver um deslocamento desse olhar. Ou, talvez, um aprofundamento pralém dessa primeira camada de reivindicação dos nossos discursos e espaços. As subjetividades da mulher, das pessoas negras e da população LGBT são múltiplas. As especificidades existentes dentro desses grupos são variadas e parece inevitável não se falar mais sobre elas. Não que a intolerância, a violência e o discurso elitista, branco, patriarcal e heterocentrado tenham sido superados, longe disso, mas é preciso reconhecer que o debate e a divergência entre nossos pares também precisa existir.

Em “Ressoar”, experimento cênico da Companhia Negra de Teatro apresentado no Teatro Espanca, na programação da Segunda Preta, esse aprofundamento do olhar parece evidente. O trabalho pouco se ancora no texto ou no discurso de afirmação, propondo ao espectador uma experiência sinestésica e sensorial que, a princípio, pode levar a um estranhamento. A direção de Felipe Soares aposta na força das imagens e suas abstrações. Dialogando com a performance e a instalação, o teatro proposto pela Companhia Negra é também artes plásticas. O que se vê em cena é uma série de quadros e de pinturas independentes em relação umas às outras, poéticas fragmentadas, mas que também se conectam na construção dramatúrgica proposta pela encenação.

Penso que “Ressoar” é uma provocação à forma como os discursos são inseridos nas artes. É comum, por exemplo, o debate sobre a presença de discursos panfletários no teatro. Para quem falo? Com quem dialogo? A arte deve dialogar? Comunicar? Em diversas montagens que abordam temáticas relacionadas ao feminismo e ao empoderamento negro e LGBT, o discurso de artista e plateia é, quase sempre, comum. Não se pode negar que o público da Segunda Preta é majoritariamente negro e também politizado. Nesse sentido, se a minha obra tem a pretensão de mudar algum pensamento, isso não se concretiza. Sem dúvidas, pensamentos precisam também ser reforçados entre os nossos iguais, mas como ir além? Como extrapolar o já conhecido?

Uma das estratégias possíveis para essa mirada no imprevisível seria criar um tensionamento entre os nossos pares. Pensar um discurso que não seja de enfrentamento ao machista, ao homofóbico, ao racista, mas que evoque justamente os machismos, homofobias, transfobias e racismos entre nós que nos dizemos livres dessas construções sociais ou que buscamos efetivamente desconstruí-las. É difícil falar sobre o racismo da amiga, a transfobia do namorado, o machismo do parceiro de cena, mas é preciso. Esse talvez não seja o caminho apresentado por “Ressoar”, mas parece haver uma ressonância dessa proposta no trabalho. Tratando-se de uma criação em processo, que deve resultar num espetáculo, é uma das pesquisas em que a obra pode se aprofundar.

Se não no discurso verbal, esse tensionamento e a busca por uma fricção parecem presentes na encenação e nas poéticas criadas aos olhos do público. O experimento cênico aposta na persistência da imagem, do desconhecido, abrindo diversas lacunas para que o espectador possa também ser um criador, um performador ativo, e não apenas um observador. Nessa experiência, a Companhia Negra de Teatro parece interessada mais em criar perguntas, do que oferecer respostas. “Ressoar” estabelece uma relação de embate, de atrito, entre arte e público. “É uma arrogância que me agrada”, como apontado pela atriz e diretora Grace Passô, presente como espectadora no debate realizado logo após a apresentação. Para mim, tendo a fala de Grace como referência, essa arrogância agrada justamente por fugir ao senso comum e por se apropriar dele para criar outras imagéticas.

A cena inicial do trabalho, por exemplo, coloca dois corpos frente a frente, em plano baixo, precisando se sustentar em quatro apoios, como numa espécie de “prancha”. Os corpos do ator Eliezer Sampaio e da atriz Michelle Bernardino. Corpos que performam e sofrem em decorrência de um esforço físico. O incômodo que se instaura nos performadores, também reverbera no público. Se a noção dramática me faz esperar um desenvolvimento contínuo e crescente dessa cena, essa expectativa não se concretiza. Estamos diante de uma ação real. Nesse sentido, o trabalho se aproxima da performance, pois trata-se de uma tarefa objetiva a ser executada pelas atuantes: permanecer naquela posição incômoda até o máximo que conseguirem. É uma cena silenciosa, de longa duração. Uma duração incômoda. Uma duração compartilhada entre artistas e espectadores. Escutar o silêncio, me estimula a treinar minha audição, minha escuta, minha performance cotidiana de ouvir. Ver aqueles dois corpos parados, me estimula a treinar minha visão, minha observação, meu olhar cotidiano. Somos deslocados de nosso estado comum.

Noutro momento, as atuantes erguem um muro de tijolos no espaço cênico. A ação me faz lembrar da performance “Derrama”, desenvolvida pelo coletivo Xepa, na qual os performadores erguem tijolos em espaços públicos. Como descrito pelo Xepa, “‘Derrama’ é uma ação silenciosa. Constrói colunas de tijolos que, no limite do seu equilíbrio, desabam. Da construção ao arruinar, do equilíbrio ao tombar, da presença ao desaparecimento. Através de uma ação prolongada obtém o desenho como aquilo que resta de um contínuo deslizar: algo que excede, transborda, desequilibra e, no ato mesmo do desequilíbrio, inaugura movimento”. Em “Ressoar”, o desafio dos performadores de colocar os tijolos uns sobre os outros, em determinados momentos, os leva a performar de uma outra forma, diferente daquela que talvez tenham treinado. Se o equilíbrio se rompe de alguma maneira, já não é mais possível retornar ao estado anterior. À medida que o “muro” se ergue, o público, que está organizado em duas plateias, colocadas frente a frente, se separa. Todo muro é uma divisão? Uma proteção? Ou é também um caminho? Em determinados momentos, me imagino erguendo aqueles tijolos. Possuo a mesma habilidade? Ou faria aquela construção desabar? E se o muro cair em alguma pessoa? É um risco real. Somos deslocados de nossa zona de conforto, do corriqueiro.

É potente perceber como visão e o olfato contribuem para que tensionamentos sejam instaurados no experimento da Companhia Negra. Em diversas cenas, a criação de luz desenvolvida por Allan Calisto é estridente. Perfura os olhos. Causa incômodo. Além disso, estamos a todo instante separados em duas plateias, uma diante da outra, e é inevitável que, ao longo das diversas situações de fricção criadas pela encenação, observemos também a reação das outras pessoas presentes nessa experiência compartilhada. Uma situação que, em muitos momentos, pode criar identificação, julgamento ou mesmo constrangimento. Isso se evidencia, por exemplo, quando um sinalizador é acendido no palco, fazendo emergir uma chama vermelha. O risco aqui também se transforma em medo por parte de muitas pessoas presentes na plateia. É preciso refletir sobre os limites dessa proposta, até que ponto sua radicalidade não coloca a segurança das pessoas presentes em ameaça. É uma preocupação. Além disso, o fogo de artifício faz o espaço cênico ser tomado por uma fumaça bastante incômoda. Um desconforto que me agrada, mas talvez seja preciso pensar sobre a mobilidade das pessoas nesse espaço. Permitir que o público também possa sair da sala de teatro, caso deseje, para que essa relação da obra com o espectador não se torne autoritária. Noutro momento, em que um baseado é compartilhado conosco, essa potência do convívio se aproxima mais de um constrangimento cômico. Dou ou não uma “bola” no baseado? Posso fumar dentro do teatro? Por que a maconha ainda não foi legalizada? Se o convívio é tudo aquilo que a cena tenta controlar, mas não consegue, essa tensão do convivial mais uma vez se instaura.

Uma outra cena potente de “Ressoar” é aquela em que a atriz Michelle Bernardino leva um discurso verbal e mais literal para o palco, um vômito contra a falta de visibilidade gerada pelo racismo em nossa sociedade. As questões particulares da artista podem também ser pensadas numa esfera mais ampla, retomando a questão identitária, e reitero aqui a provocação feita pelo dramaturgo e performer Anderson Feliciano no debate após a apresentação: “De que corpo e de que povo negro estamos falando em cena?”. Para mim, o próprio desenvolvimento desse trecho do experimento complexifica essa abordagem acerca da representação de um corpo negro e de seus estereótipos. À medida que o discurso de Michelle se intensifica, o som de um tambor, tocado por Eliezer Sampaio, começa a se destacar, instaurando um embate entre as duas ações: qual delas vai reter a maior atenção do público? Como apontado pelo ator Thiago Rosado, também presente no debate, a cena pode ser lida como uma provocação ao fato de que, diversas vezes, o discurso político das pessoas negras não é ouvido, enquanto suas expressões artísticas são valorizadas e apropriadas por pessoas brancas. Uma contradição. A cena mais uma vez explicita a performatividade do público. A escolha de olharmos para Michelle ou Eliezer é também uma autoexposição. Ficamos novamente suscetíveis ao julgamento ou identificação do olhar alheio.

A encenação também retoma o estereótipo da mulher negra sambista no carnaval. Empunhando um cabo de vassoura, Michelle desfila pelo espaço cênico, por vezes se desequilibrando. Ainda que essa imagem e essa crítica já sejam comuns em diversos trabalhos que questionam o racismo estrutural e a espetacularização do corpo negro, ela parece ganhar uma outra camada quando, ao longo desse fragmento, Michelle começa a pintar o corpo de Eliezer com tintas brancas e vermelhas. Nesse instante, o corpo do ator se torna uma tela, um quadro, uma obra de arte. Teatro e artes plásticas se aproximam e vêm questionar justamente um pensamento sobre o que é validado como arte, sobre o que é cultura. A expressão artística considerada popular, da mulher negra sambista, e a arte considerada erudita, da tela que é corpo vivo na galeria, se colocam frente a frente. Mais uma fricção imagética criada pelo trabalho. Ao fim do fragmento, Eliezer cospe uma tinta preta sobre o pano que a vassoura segurada por Michelle erguia. O ato de cuspir seria uma violência? Uma libertação? Um sangue derramado sobre o tecido? Ou “apenas” uma tinta e ponto?

Por último, gostaria de refletir especificamente sobre o debate que aconteceu após a apresentação de “Ressoar”. Por se tratar de um trabalho ainda em processo, é importante a realização dessa discussão para a construção do espetáculo, mas fico refletindo sobre como muitas perguntas, às vezes, mais esgotam a obra do que a alimentam. Talvez isso tenha acontecido, justamente, pelo fato de o experimento cênico se afastar de um discurso fechado, o que provocou o público em buscar sentidos e significados para as imagens criadas pela Companhia Negra. Mais do que perguntar aos artistas criadores o que “Ressoar” significa, questiono se uma obra de arte precisa realmente ter um significado dado, se uma obra de arte precisa comunicar algo. Mesmo que um artista pretenda criar um trabalho sem significado, o nosso olhar vai gerar significações e, muitas vezes, é preciso acreditar na potência da nossa performatividade enquanto espectadores também na criação e na assimilação de uma obra.

Arte precisa partir de um conceito? Ter uma explicação? Comunicar? Causar uma sensação? Ao experienciar o desconhecido, a Companhia Negra de Teatro desloca o nosso olhar do concreto, acreditando que o teatro também possa ser abstrato. Isso não faz dele necessariamente menos político ou engajado. Pensar materialidades, formas, geometrias, cores, é também uma escolha artística e política. E é nessa abstração que “Ressoar” encontra potências e gera suas ressonâncias.

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Fotos: Pablo Bernardo
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